Arquivo do mês: agosto 2011

“Tenho a impressão que a vida,
as coisas foram me levando. Levando em frente,
levando embora, levando aos trancos,
de qualquer jeito.
Sem se importarem se eu não queria mais ir.
Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui.”

[Caio, em: Triângulo das Águas] 

“Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim.”

(Caio F. Abreu in Quando setembro vier-Pequenas Epifanias)

 

“Alguma coisa em mim — e pode-se chamar isso de “amadurecimento” ou “encaretamento” ou até mesmo “desilusão” ou “emburrecimento” — simplesmente andou, entendeu?
Desisti de achar que o príncipe vai achar o sapatinho (ou sapatão) que perdi nas escadarias. Não sinto mais impulsos amorosos. Posso sentir impulsos afetivos, ou eróticos — mas amorosos, sinceramente, há muito tempo. É estranho, e não me parece falso, mas ao contrário: normal. Era assim que deveria ter sido desde sempre. E não se trata de evitar a dor, é que esse tipo de dor é inútil, é burra, é apego à matéria.”

(Caio F.)

“Ela perguntou como é que eu tive certeza de que aquela escolha era a mais acertada. Respondi que nunca tive, que não tenho até agora. Porque tem coisas que a gente, simplesmente, não sabe. Decidi ali na tentativa de fazer o melhor e fui. Com fé. Sim, fé e não certeza. Vontade que desse certo. Ou, de pelo menos, que não fosse motivo para me arrepender para todo o sempre. Em alguns momentos, deu certo. Noutros, me arrependi para todo o sempre. Agora, acho que me conformei e que é assim e pronto, não tem mais volta e tudo bem. Tudo bem, de um jeito ou de outro, que a vida e o tempo consertam as coisas.”

(Briza Mulatinho)

“Sai pela porta, mas deixa sempre uma janela aberta.  Apressa o passo. Pula umas pedras pelo caminho e vai. Um sorriso aberto feito sol de verão que inaugura o dia. Lembra da menina que era ainda em outras primaveras. Quem inaugurava agora, era ela. Estampa o rosto de mudança. Percebe o tamanho das pernas. Prontas para pular. Agora abismos. Essa era sua especialidade. Pulos. Sempre em frente. Depois de muito tempo, ela agora sabia bem onde queria chegar.”

(Vanessa Leonardi)

“Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse: – Fica quietinha um momento só, escuta a chuva chegando. E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores. Então, por favor, dêem isto: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.”

(Lya Luft)

” Nos últimos dias, isto é, ontem, a tristeza começou a ceder terreno a uma espécie de – digamos – abnegação. Durmo, acordo, faço coisas, leio muito.
E esse vazio que ninguém dá jeito?
Você guarda no bolso, olha o céu, suspira, vai a um cinema, essas coisas.
E tudo, e tudo, e tudo…”

(Caio F. Abreu – A Marcos Breda )